Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

Doido


Quero escrever coisas doidas
Pelo menos nessa imensidão
Encontrarei doidos que me aplaudam.
Quero dizer coisas sem pé e sem cabeça,
Mas, pelo menos, que tenha uma linha, um fio, um vulto
Que me diga algo
E gestos impulsionando-me
A fazer literatura.
Chega de dizer o que é certo
Pois nas coisas erradas
É que desnudo o conveniente.
Doido é sair do sério ou ficar sério.
A linguagem dos doidos é comovente
É tão verdadeira que seus sonhos e pesadelos
Levam à viagem
Que chegam aos quatro cantos do mundo.
Quero estar com os óculos de doido
Para que veja nos sabidos
A idiotice a minha frente.
Quando veem um doido dizem:
Corre, lá vem o doido,
Corre que o doido pega
E ai corre como um doido.
Doido é coisa boa
Doido é ingenuidade
Doido é franqueza
Doido é beleza
Ninguém diz tô doido pra morrer
Mas tô doido pra viver
Todo mundo diz tô doido pra viajar
Tô doido pra comprar um carro
Tô doido pra namorar
Tô doido pra fazer sexo
Tô doido pra gozar
Tô doido pra me casar
Tô doido pra me separar
E ficam dois doidos a reclamar
Tô doido pra ganhar na loteria
Tô doido pra ganhar muito dinheiro...
Viu que doido não é coisa ruim?
A depender como você ver o doido
Ser doido é muito bom pra sonhar...
Celso Lacerda
Barreiras – Ba, 31 de maio de 2009










Segunda-feira, 20 de Abril de 2009

Mudei

Venho de uma casa. Tudo quase certo.
Tudo em seu lugar.
Reclamava quando as coisas não combinavam.
Tinha um olhar critico quando as coisas destoavam.
Os horários eram como se fosse um ritual
Tinha hora de acordar, trabalhar, dormir, almoçar...
Parece que o relógio não estava na parede, ou no punho
Estava na minha subserviência
As coisas eram assim:
Açúcar no açucareiro
Farinha na farinheira
Salada na saladeira
E o café no quente frio
A roupa no guarda roupa
O sabonete na saboneteira
Era um quebra cabeça
Cada qual no seu cada qual
Tudo certinho
Descobrir que coisas simples dá prazer
E que nem tudo que combina é o ideal.
Não é errado de quem faz
Mas com isso fica tão submisso
Perde tempo...
E deixa de descobrir a essência do que é viver.
E a vida e a felicidade estão aonde?
Estão nas coisas simples.
O meu sapato tinha lugar certo de ficar
Hoje fica em qualquer lugar
Na sala, no quarto ...
A minha calça fica sentada na cadeira
Aguardando-me quando for usar.
Aquela vasilha de margarina
Que jogava no saco do lixo
Hoje enfeita minha prateleira cheia de arroz, de café, de sal...
O pregador de roupa
Que só pregava roupa
Hoje tem mais uma função
Lacra o saco de açúcar, de farinha, de feijão...
O café era servido na xícara, porque no copo não?
O livro ficava sempre na estante
Hoje ele percorre a casa e depois das minhas leituras
Vira até travesseiro
Deixando-o bem pertinho da minha cabeça
De onde ele deveria entrar e fazer morada.
A Busca por coisas de marcas...
E onde está a minha marca?
O meu eu integral?
O sabão em pó tinha nome
Era Omo hoje qualquer uma...
A esponja para lava louça tinha nome
Era Bombril hoje qualquer uma...
E outras.... Qualquer uma...
E hoje com esse meu qualquer uma...
E com esse meu olhar de enxergar
É que sinto que nas coisas simples
É que eu me encontro,
Que eu me cuido,
Vejo a beleza da vida
E gosto mais de mim.

Celso Lacerda
Barreiras – Ba – 19-04-2009

Quinta-feira, 16 de Abril de 2009

Decidida para amar

Você chegou como quem não queria nada...
Querendo tudo.
O seu olhar apunhalou minha alma
E na distância em que separava o nosso desejo
Senti o sabor da sua boca
Que como ondas sonoras
Saltava em direção a minha.
A sua fome estava no seu olhar
Que milimetricamente me engolia
Arrepiado por dentro
Faiscava centelhas de desejos
Suspirei e lentamente como um fiapo ao vento
Colei no seu corpo
Acariciei e adentrei no seu íntimo
E como galhos retorcidos embalamo-nos.
Sussurros e gemidos molhados deslizavam
Era uma orquestra de prazer
E cada vez mais liberava um pouco dos nossos nós
E nesse vai e vem e vem e vai
Desprendiam águas salgadas e doces
Que adoçavam o nosso atrito
E como um furacão os nossos gemidos e sussurros
Foram se acalentando, nós éramos um
E um sorriso tão leve, sela.

Celso Lacerda
Salvador – Ba – 13.04.2009

Quando você pensava que era EU...

Virou meu calendário,
Meu relógio,
Minhas noites, minhas manhãs, meus dias,
Meu inverno, meu verão,
Meu tempo, meu espaço
Meu suspiro, minha visão
Minha muleta, minha direção.
Queria Invadir os meus sonhos,
Minha vida, meus segredos.
Mentia pra si. Enganava-se.
Nutria-se com o conveniente
E embebedava com o próprio veneno
Escondia-se dentro da própria sombra
Mascarava e se perdia
Roubava a minha paz.
Não queria ser a minha cara metade
Queria ser a minha cara inteira
Que ilusão...
E quando quis se encontrar...
Tudo era estranho
O vazio materializou-se
E a solidão adentrou no seu intimo.
De tanto você pensar que era EU
Esqueceu de você e se perdeu...
Perdeu a identidade.
Mas, como nada fica igual ...
Comecei a andar na contramão
Desprender-me.
Não tenho dono.
Meus olhos saltaram na imensidão...
Minha vida ainda me deu a oportunidade de olhar pra trás e ver um mundo pequeno que não me pertencia mais...
Sou único e verdadeiro
Com vontades, sonhos e desejos.

Celso Lacerda
Brasília – DF 25.02.2009

Sábado, 14 de Fevereiro de 2009

DIFERENÇAS

Você pode até me amar, ficar comigo
Se aproveitar, mas, por favor, te peço
Não queira me acorrentar.
O sol la fora me chama,
A brisa quer me sentir,
O mar quer banhar meu corpo
A noite quer me receber
E a lua quer iluminar o meu ser.
Tenho tempo pra você também.
Observe... não é pouco...
Mas lá fora outros amores e outras dores me esperam,
São coisas alegres, tristes e contentes
Sei que tô na terra e sem isso não existe viver
e ser gente.
Pra que acorrentar?
Se nem tudo que achamos que está preso em nós
Nos pertence.
Observe, tem momentos na vida que matamos coisas dentro de nós
Em prol de alguém...
E continuamos vivendo nem que seja pela metade.
A minha prisão pode ser até a sua solidão
Reveja...
Sonhar, viver e amar não combinam com acorrentar.
Celso Lacerda
21 de janeiro de 2009 - Paraguai

Domingo, 25 de Maio de 2008

Madrinha luz

A vida perde o encanto
E nas lembranças firmes e duradouras
Faço renascer a sua imagem
Bondosa e protetora.
Recordo-me do seu imenso afeto,
Das suas exageradas preocupações,
Do seu estilo materno,
Das suas demasiadas ponderações.
A falta do seu abraço filial,
Do beijo e da enorme afeição.
Deixa um vazio sem limite,
Que saudade... De pedir a sua benção.
Lembro-me, também das suas orações,
Que nas continuas manhas fazia
Com os seus joelhos plantados no chão,
Rezava por todos pedindo proteção.
Com os olhos tremos fechados
Orava que as lagrimas desciam com prazer
A entrega ao mestre Jesus
Era grandiosa sem se conter.
A sua vida na terra
Era brilho, fé e luz.
Procurava ajudar a todos
E tinha um eterno amor a Jesus.
Mas, o açúcar que adoça a vida,
Para mim um dia amargou,
Arrebatando a mãe madrinha
Para brilhar com o nosso senhor...

Por Celso Lacerda
17.06.1996

Sexta-feira, 23 de Maio de 2008

Palha de Aço

Você diz que eu sou palhaço
Eu não sou palhaço não,
Eu sou palha de aço
Que arranha o coração.

A platéia da risada
Com as coisas que eu faço
Dá risada do meu ser
E tenta roubar meu espaço
Eu queria só saber
Quem é o verdadeiro palhaço.

O picadeiro é o mundo
Onde há embaraço e laço
Zomba do meu sentimento
Eu sou brilho, amor e abraço.
Eu queria só saber
Quem é o verdadeiro palhaço.

Bota cores no meu rosto
Me desenha e cria traços
Quer me dividir e rotular
Eu sou inteiro não sou pedaço
Eu queria só saber...
Quem é o verdadeiro palhaço.
Eu queria só saber
Quem é o verdadeiro Palhaço...

Por Celso Lacerda18.09.199